Volume 7 · 1927 · Traduzido do inglês
E outros ensaios sobre a relação do médico com os homens e as instituições
Francis Weld Peabody (1881–1927)
Os quatro ensaios do professor de Harvard que escreveu, já doente e a um ano da morte, a frase mais citada da medicina: o segredo do cuidado do paciente está em se importar com o paciente.
Em 21 de outubro de 1926, um professor de clínica médica de Harvard subiu ao anfiteatro para falar aos estudantes. Tinha quarenta e quatro anos, um sarcoma no estômago diagnosticado meses antes e menos de um ano de vida. Não falou de nenhuma doença. Falou do que a escola não ensinava: o que acontece com um homem quando ele entra num hospital e perde o nome, por que perto de metade dos doentes tem sintomas que exame nenhum explica, e o que um estudante de jaleco branco pode fazer sentando-se na cadeira ao lado da cama.
A conferência tem seis páginas e termina com a frase que a medicina repete desde então: o segredo do cuidado do paciente está em se importar com o paciente. Virou o texto humanista mais citado do ensino médico no mundo inteiro, e é lido em cerimônia de jaleco branco, em aula inaugural e em cartaz de corredor de hospital — quase sempre sem contexto, com frequência deformado, e por quase ninguém que tenha lido o ensaio inteiro. Quem lê descobre que não é um apelo à bondade: é uma tese sobre método clínico. Peabody argumenta que o médico que ignora a vida do doente é tão pouco científico quanto o pesquisador que deixa de controlar as condições do seu experimento.
Este volume traz a íntegra do livro que os amigos de Francis Weld Peabody publicaram em 1930, três anos depois da morte dele, e nunca havia sido traduzido: a defesa do clínico geral contra a maré do especialismo, feita em Seattle em 1923, com o retrato do doente que roda de especialista em especialista como um navio sem piloto; o alerta de 1922 contra o exame pedido sem hipótese, escrito, note-se, pelo homem que dirigia o laboratório; a conferência de 1926; e a carta a um amigo sobre como se dirige um serviço de clínica médica, cuja última frase ele escreveu na véspera de morrer.
Peabody não descobriu nada. Morreu aos quarenta e cinco anos sem dar nome a nenhuma doença, a nenhum sinal, a nenhum instrumento, e é lido cem anos depois. O que deixou foi a descrição, feita com a precisão de quem estava acostumado a descrever fisiologia, do que acontece entre duas pessoas numa enfermaria.
Tradução integral e direta do inglês de 1930. Cada ensaio vem acompanhado de um comentário assinado por um cirurgião vascular, que diz com franqueza o que Peabody acertou, o que a medicina corrigiu e o que permanece — do modelo biopsicossocial ao prontuário eletrônico, da atenção primária ao excesso de exames. A edição traz ainda introdução, notas que identificam pessoas, instituições, provas de laboratório e termos de época, cronologia, glossário dos falsos cognatos da medicina americana, posfácio e seleção de passagens com o inglês ao lado, para quem quiser citar Peabody corretamente. Volume 7 da Coleção Anamnese: Clássicos da Medicina Comentados.
Tradução do inglês, introdução, notas e comentários de Alexandre Campos Moraes Amato.
Passagens reproduzidas literalmente da edição brasileira
Uma das qualidades essenciais do clínico é o interesse pela humanidade, pois o segredo do cuidado do paciente está em se importar com o paciente.
One of the essential qualities of the clinician is interest in humanity, for the secret of the care of the patient is in caring for the patient.
O cuidado do paciente, 1926 — a última frase da conferência
O tratamento de uma doença pode ser inteiramente impessoal; o cuidado de um paciente tem de ser completamente pessoal.
The treatment of a disease may be entirely impersonal; the care of a patient must be completely personal.
O cuidado do paciente
O bom médico conhece os seus pacientes a fundo, e esse conhecimento é comprado caro. Tempo, compaixão e compreensão precisam ser dispensados com largueza.
O cuidado do paciente
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